sábado, 18 de fevereiro de 2012





A CIGARRA E A FORMIGA (A FORMIGA BOA) (Monteiro Lobato) 




        Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
        Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas, Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
        A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
       Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique...
       Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina.
     - Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
     - Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
      A formiga olhou-a de alto a baixo.
    - E que fez durante o bom tempo que não construí a sua casa?
      A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse.
    - Eu cantava, bem sabe...
    - Ah!... exclamou a formiga recordando-se. Era você então que cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
   - Isso mesmo, era eu...
    Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora!        Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
   A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.
 

                                                                        Do livro Fábulas, Monteiro Lobato, 1994.






4 comentários:

  1. Jeito agradável do Lobato recontar La Fontaine, nos passando a ideia de que a vida não é somente trabalho, como na estória original, mas também aproveitar a paisagem do caminho.

    Um abraço e um ótimo sábado para você Patricia!

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  2. Respostas
    1. Alguém um dia comentou, após ler esta história, que as cigarras são os poetas, os cantores ,os pintores... enfim os artistas da sociedade: e que não podemos deixá-los morrer de frio.
      Trabalho é arte também.A arte que suaviza a peleja da vida.
      Imagine a vida sem cigarras... não concebo.

      Assinado: A cigarra (rs,rs, rs...)

      Abraço will e a paz de Cristo.

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  3. Verdade maior! Os que se ocupam com as coisas do coração, por vezes, são interpretados mal por quem só se preocupa com as coisas dos braços.

    A paz do Senhor para você também e que seu sábado continue abençoado, com o perfume de cristo inundando o teu coração...

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